terça-feira, agosto 26, 2008

A BÍBLIA QUE SE ESQUECE É A QUE VALE


Memorizar versículos sempre foi uma prática distintiva dos protestantes. Uma memória com a promessa de municiar o crente para o enfrentamento da vida. Para cada situação há os recortes do texto bíblico capazes de diluir resistências, superar dúvidas, vencer embates pela razão, acalmar, motivar, consolar, sustentar o dono da memória enquanto vive.
Lembro dos cultos em que o louvor era seguido por um momento de recitação de versículos da Bíblia. Na Escola Bíblica, memorizar o versículo bíblico era condição para uma aula bem sucedida. O bom “evangelista”, este conquistador de adesões, destacava-se pela habilidade de sacar o texto, com a devida referência bíblica, apropriado para cada contestação dos resistentes à pregação. Uma pregação bíblica confunde-se entre protestantes com uma pregação que cita muitos textos bíblicos, mesmo que a exposição das idéias mostre-se rasa ou um lugar comum.
A mania de memória além de carregar a crença acrítica de que o conhecimento imediato do texto é posse plena da verdade, desprezando a mediação dos conceitos, também expõe a falência do projeto de quem dela faz uso: a busca desesperada de memória. Buscamos memória porque perdemos a presença. Quanto menos há, de mais lembrança carecemos. Quem faz o álbum das fotos é quem encerrou as férias. Quem, além do apaixonado por fotografia, gasta as suas férias para apreciar as fotos que dela está fazendo? O fato presente prescinde de memória. Ninguém precisa lembrar do que ainda está fazendo. Fixam-se lembranças do que agora está vazio.
Ninguém precisa se lembrar do que presencia. E quanto mais presentes nós estamos em um movimento mais dele nos esquecemos. A melhor imagem que me ocorre é a do motorista. Dirige bem quem se esquece dos mecanismos da direção e se ocupa tão somente do trânsito. Quem é o bom motorista? O que precisa listar de memória cada movimento do câmbio e sua sincronia com os pedais, ou quem o faz sem sequer se dar conta de que pressiona o pedal da embreagem à medida que encaixa a próxima marcha? Aprendemos a dirigir quando nos esquecemos dos mecanismos da direção enquanto dirigimos.
É assim com tudo o que é presente na vida. Quanto mais presente e pertencente a nós algo é mais dele nos esquecemos. É assim quando lemos, quando fazemos cálculos, quando jogamos, quando fazemos sexo, quando comemos, quando vivemos.
A dor é outro exemplo. Não nos lembramos das partes do corpo se com elas está tudo bem. Quando nos lembramos do dente é porque ele está doendo. A lembrança no corpo é sua doença.
Não pode ser diferente com a Bíblia. Ela é uma literatura que de tão identificada com a nossa vida é viva. Sua memorização é certificação de seu adoecimento ou morte. Sua presença em nossa prática, relações, escolhas, sentimentos, moralidade, afeições, é proporcional ao seu esquecimento. Se pudermos falar de uma mente bíblica, ou de viver biblicamente, diremos que uma prática bíblica é a que da Bíblia não precisa fazer referência para por ela ser afetada. Pois o que precisa ser ritualmente memorado está longe, tanto quanto se esquece de algo de tão presente que se faz.
Niezsche denuncia a memória como um mal humano na Segunda Dissertação da sua Genealogia da Moral. Chama a memória de desejo de controle do futuro. Precisamos de memória porque na ânsia de controlar o futuro fazemos promessas e com elas comprometemos nossa existência com o que não está mais presente. Essa necessidade de memória impede o esquecimento como o corpo doente é impedido da digestão. O indivíduo que busca a memória é como o apéptico, o que não faz digestão, regurgitando idéias mortas, ressentindo o que já passou.
A melhor Bíblia é a que esquecemos de tão digerida e absorvida por nossa vivência. A Bíblia que precisa ser memorizada é uma porção indigesta. Nem poderia ser diferente. Transformá-la em uma coleção sistemática, simétrica e absoluta de verdades é roubá-la de sua digestibilidade, sua profunda e radical penetração em nossa vida. A Bíblia que deixa de ser literatura, visto que é essencialmente narrativa e poética, torna-se morta de tão distante e estática. Um clamor desesperado à memória. Um mortuário da fé.
A Bíblia que está de fato em nós é a que esquecemos. De tanto que faz sentido. De tanto que nos permeia.


Por Elienai Cabral Júnior

segunda-feira, agosto 25, 2008

Cada teologia tem a sociedade que merece.


O cristão precisa situar-se no mundo em que vive.


Jesus orou para que, estando no mundo, ficássemos livres do mal, mas parece que insistimos em sair do mundo e continuar com o mal. Afastamo-nos das formas culturais como se fossem malignas por si mesmas, mas permitimos que valores errados nos influenciem, desde que tomem formas religiosas. Afastamo-nos também das indagações do mundo. Como disse alguém: dizemos que Cristo é a resposta, mas para qual pergunta? Já não conhecemos as perguntas que o mundo nos faz.
Vamos investigar uma idéia que é constante no cinema atual: carma ou escolha. Existe o livre-arbítrio ou seguimos um destino pré-determinado? Vários filmes recentes tratam do assunto. Talvez seja um sinal de que esta nossa megacultura ocidental está descobrindo suas fraquezas, precisando se reinventar, e busca subsídios teológicos para isso.
Um desses filmes, o mais poderoso em formar pensamentos, é a série “Matrix”. O primeiro virou “cult”, filme cheio de inovações gráficas e de pseudo-enigmas; digo pseudo porque o segundo filme responde a todos eles e revela o balaio de gato sem fim que é o mundo de “Matrix”. Se o primeiro deixou dúvidas quanto à filosofia dos autores, o segundo traz tudo às claras. Quando Neo (Keanu Reaves) finalmente encontra o “Arquiteto” (que, na cabeça dos diretores delirantes, deve ser uma mistura de Deus como foi retratado por Michelangelo na capela Sistina, e de Bill Gates), este discursa longamente sobre o livre-arbítrio. Propõe que o grande problema do messias é o livre-arbítrio. Ele tem capacidade de escolha, e a usa mal, o que o coloca num círculo infinito de novas tentativas, forçado a repetir o mesmo destino cármico de fracasso, deixado pelo que veio antes dele… Sei lá se entendi mesmo essa bagunça hinduísta-exotérica-digital, que é o retrato perfeito do pós-modernismo. Mas esse vale-tudo filosófico traz à cabeça da geração atual uma importante pergunta: podemos escolher nosso destino? Ou temos apenas uma falsa sensação de liberdade, criada pelo arquiteto sádico desta matrix em que vivemos?
A história de “Minority Report”, de Spielberg, é mais simples. Num futuro não muito distante decide-se testar um programa para evitar assassinatos. O programa é parte da polícia local, chamada Divisão Pré-crimes, que se baseia em informações transmitidas por três videntes, chamados Precogs. Os videntes são capazes de ver os crimes antes de acontecerem. A polícia corre ao local e evita o crime, prendendo o pré-criminoso, que é tratado como um criminoso de fato, apesar de não ter cometido nenhum homicídio.
A história esquenta quando os videntes têm uma premonição de um crime que o próprio chefe da polícia John Anderton (Tom Cruise) cometeria. As imagens dele matando um homem que ele nem mesmo conhecia aparecem na tela das premonições. O feitiço se volta contra o feiticeiro. O chefe dedicado se vê vítima do sistema no qual confiava plenamente. De acordo com este sistema, um pré-criminoso é um criminoso real, porque o futuro visto pelos videntes é tratado como uma realidade inexorável.
Alguns teólogos já disseram que se o futuro é conhecido (seja por Precogs ou por Deus), o livre-arbítrio não existe de fato. Tudo obedece a um desenho previamente feito — uma vontade soberana que engole todas as outras vontadezinhas em seu grande útero.
Essa “teologia” gera a sociedade do pré-crime. A predeterminação torna essa utopia possível, até desejável. Basta que conheçamos o destino programado para cada um e nos encarreguemos de protegê-lo desse destino, prendendo pré-assassinos, eliminando intra-uterinamente alguns indivíduos cujo mal inerente o justifique. Se os Precogs conseguissem prever um novo Hitller ou um novo Saddam, sua eliminação seria automática.
Esse futuro pode estar mais perto do que imaginamos. A genética moderna sofre da mesma síndrome dos Precogs. Alguns cientistas afirmam que existem genes responsáveis por comportamentos morais. No futuro, um exame de sangue poderá nos dar as dicas que precisamos, poderá desenhar o perfil do indivíduo — se assassino, estuprador ou franco-atirador. Será um mundo limpo. Um hemograma, um perfil genético, e a sociedade do pré-crime se arma de razões para processar, prender e até eliminar seres humanos.
Essa utopia é um produto direto de nossa teologia cristã. Somos o que cremos. Nossas crenças são a base de tudo o que construímos. A teologia da predeterminação está no coração da cultura ocidental, desde Philo e Agostinho. Também está no coração das sociedades islâmicas fundamentalistas, absolutas e totalitárias: “Maktub” — está escrito. Será Deus o mesmo Alá?
Mas, e se fosse diferente? Se, em vez de teologarmos e filosofarmos, acreditássemos puramente na Bíblia? Ela diz que Deus se arrependeu de ter feito o homem (Gn 6.6). Ao descobrir que o ser livre que havia criado escolheu negar-lhe amor e ainda afrontá-lo com uma impiedade além de todos os limites, Ele sofreu. Sofreu tanto quanto um homem que, tendo tirado uma mulher da mais suja lama moral, drogada, suja, prostituída, se casa com ela, tem filhos, constitui uma família. Um dia este homem chega em casa e não vê sua esposa. Ela voltou para as ruas. Preferiu a lama, as drogas, o sofrimento degradante. O marido sofre agora, não por si mesmo, mas pelo destino que sua amada escolheu e que a fará sofrer. Essa é a metáfora proposta por Deus para falar de seu amor pelo povo de Israel, no livro de Oséias. Alguns teólogos que me desculpem, mas esta não é a imagem de um Deus-Alá indiferente e soberano sobre a vontade humana.
Todas estas, além de inúmeras outras passagens literais e metafóricas da Bíblia, perdem o sentido se o futuro for causado, se o livre-arbítrio humano não for real, mas um artifício divino para nos dar apenas a impressão de liberdade. A Bíblia passa a ser um livro sobre a grande matrix ilusória de Deus, e não o livro destinado a nos descortinar a verdade sobre o amor de um Deus que espera para ser amado, que nos pede para escolher a bênção em vez da maldição.
Engraçado que, diferente dos idealizadores de “Matrix”, o judeu Steven Spielberg escolhe como final esta última versão da verdade sobre o ser humano. No final a sociedade do “Minority Report” redescobre que é livre. O chefe da polícia, quando encara face a face o seu próprio crime, é surpreendido pela voz da vidente que lhe diz: “Não! Você é livre para não matá-lo.” O próprio criador do sistema, Lamar (Max von Sydow), que por anos seguidos prendeu pré-criminosos, também se vê de frente com o seu próprio destino. A visão de seu pré-crime aparece na tela. Com uma arma na mão, encara Anderton, que lhe diz: “Se você me matar, vai para a cadeia, mas prova para todos que você está certo”.
No entanto, ele próprio se sabe livre e atira contra si mesmo, numa confissão desesperada de fracasso. A sociedade se liberta da arbitrariedade do pré-crime, antes consagrada como a solução de todos os males. Os pré-criminosos voltam às ruas e deixam de pagar pelo que poderiam ter feito, mas nunca fizeram. E todos respiram aliviados por se verem restaurados novamente à sua dignidade de seres humanos no comando de seu destino.
Ligados a uma rede de fios, mergulhados numa piscina azulada que lhes mantinha aquecidos, os Precogs eram uma visão grotesca no início do filme. O local onde ficavam chamava-se templo e não era visitado por ninguém. Eles não eram capazes de interagir. Sua única função era prever o futuro. Eram três, uma trindade divinizada (coincidência?) e seus policiais do pré-crime eram chamados de sacerdotes. No fim, invalidadas suas previsões, recobram sua humanidade e voltam a viver como qualquer outro ser humano, numa metáfora que me faz pensar em Salmos 78.41, Isaías 53, Lucas 23 e tantas outras passagens que nos mostram o Deus supremo limitando-se em seu próprio poder por nos ter feito livres e sujeitando-se à morte na cruz para assim, apesar de nossas escolhas erradas, poder nos redimir.
Se verdadeiro livre-arbítrio implica uma definição diferente para a onisciência divina não me importa. Se o livre-arbítrio respalda a idéia da meta-história, que se desenrola para Deus na eternidade e para os homens na terra, numa interação dinâmica e temporal da divindade com a humanidade, também não me importa. Se é armeniana ou calvinista esta idéia não me importa. Como os judeus, povo tribal sem pretensões filosóficas, não pretendo dissecar Deus e sua vontade como se disseca um defunto numa aula de anatomia. Para mim, a teologia verdadeira é aquela que me aproxima dele e de seu amor.
Spielberg tem razão em sua crítica às incoerências da teologia cristã. O Deus do Antigo Testamento não escolheu o caminho mais simples, o de eliminar a possibilidade do mal, criando um jardim perfeito de autômatos sem vontade. Conviver com a possibilidade do mal, permitindo-nos ser capazes de discernir e escolher entre o bem e o mal, foi um caminho mais arriscado, mas que tornou possível o amor. Que Deus nos permita continuar crendo nisso. Cada teologia tem a sociedade que merece. Uma proposta “teo-filosófica” diferente poderia mudar o futuro do mundo? Resta a nós, cristãos, decidirmos.
Por, Braúlia Ribeiro
Braulia Ribeiro - Pioneira no Norte do Brasil trabalhando entres tribos indígenas, é missionária de Jovens Com Uma Missão desde 1980. Formada em Etno-lingüística pela University of the Nations no Havaí, e com mestrado em Lingüística Antropológica pela Universidade Federal de Rondônia dá assistência lingüística e antropológica às equipes que trabalham nas tribos e é coordenadora acadêmica do campus da Universidade das Nações em Porto Velho. É casada com Reinaldo Ribeiro e juntos lideram o Ministério Transcultural em Porto Velho-RO. Leia também seus artigos na revista Ultimato.

Messias Modernos


O missionário que trabalha numa agência interdenominacional não traz o devido retorno à igreja ou igrejas que o enviaram. Algumas vezes, se ele está muito distante ou se comunica pouco, o relacionamento se descolore com o tempo e ele é mal compreendido. Torna-se quase uma culpa que alguns carregam, ou um peso financeiro, facilmente substituível pela necessidade de um projetor novo, mais cadeiras ou por um obreiro assalariado para a congregação.
Conheço famílias que foram abandonadas no campo sem aviso prévio. De repente a mesada parou de chegar. Descobriram, depois, que uma decisão da hierarquia da denominação mudou as regras do jogo e decidiu cortá-los da folha de ofertas. Por vergonha ou por falta de interesse, ninguém se deu ao trabalho de comunicar aos missionários. Alguns voltaram, outros ficaram porque a fonte é sempre o Senhor, e não faz parte de seu caráter desamparar ninguém.
A igreja local empenhada cobra resultados espirituais “concretos”, números de convertidos, de batismos, de células de estudo. Há missionários que contam até as pedras do caminho para prestar contas. Outros gastam boa parte de seu tempo bolando maneiras de “comunicar” melhor, pintando de cores vivas demais o trabalho, traduzindo seu dia-a-dia em espiritualês (este é um dom que eu gostaria de ter). Outros, ainda, tentam educar os mantenedores falando a verdade: “Hoje passei o dia cozinhando e lavando panelas para que os índios de dez tribos diferentes que aqui estão possam ter aulas sobre cidadania”. Uma frase assim não rende dividendos. Nem “cozinhar”, nem “lavar panelas” nem “cidadania” é espiritualês.
Uma certa dramaticidade parece necessária. Muitos missionários escrevem cartas que são rosários de lágrimas — descrições infindáveis dos horrores do campo, das doenças, da impiedade do povo. A postura messiânica é essencial: “Se não fosse o meu trabalho ou de minha família, o que seria destes pobres selvagens, destas garotas prostitutas, destes perversos muçulmanos?”. A história do mês tem que ser a mais emocionante possível, extraída de um cotidiano tedioso. Bolsos também são abertos com lágrimas. É o evangelho jogando no mercado de capitais da pobreza.
Infelizmente nem a missão nem a igreja (generalizando grosseiramente) têm consciência da importância do evangelho no contexto geopolítico atual. Se somos chamados ao amor e não ao proselitismo, nos tornamos produto único no mercado. Não temos time a defender a não ser a pessoa de Jesus, a compaixão dele, a cura dos ódios sociorreligiosos-raciais que só ele pode providenciar. Soube por uma pessoa que uma tradução do Evangelho de Mateus feita dois séculos antes de Maomé foi encontrada em uma língua popular do Oriente. Muçulmanos ultra-radicais, sabendo disto, pediram: “Por favor, nos ajudem a recuperar o Jesus que o Ocidente nos tirou; queremos conhecê-lo”.
O Jesus do mercado carrega marcas na camisa como jogadores de futebol; o verdadeiro fala com todas as línguas, culturas e religiões. A missão que tem consciência geopolítica sabe de sua função de linha de segurança que mantém num fino equilíbrio situações tão perigosas quanto uma granada sem pino. A igreja que tem esta consciência não consegue cobrar placas, ou prosélitos. Ela sabe que enviou uma ovelha ao meio de lobos, para “apenas” ensinar futebol, dar aulas, acalentar crianças, tratar malárias e HIV, andar de burca, atrás da cortina negra, para, quem sabe, com auto-sacrifício, trabalho e muita sabedoria, exercer o doce-azedo ministério da reconciliação.
• Bráulia Ribeiro, missionária em Porto Velho, RO, é autora de Chamado Radical (Ed. Ultimato). braulia_ribeiro@yahoo.com